Cristiane Mare da Silva. Emergindo dos escombros: minha experiência com o fascismo!!
Temos a errônea crença de que os espaços
em que somente existem mulheres sejam necessariamente livres do patriarcado e
pensamento sexista. Muitas mulheres, incluso, as que participam ativamente da
politica feminista, também decidiram acreditar nisso. bell hooks
Por
muito tempo, acreditei erroneamente, talvez fruto da própria imaturidade
intelectual, que o feminismo/ racismo poderia ser pensado a partir do bloco,
mulher x homem, negros x brancos, como algo biológico, presa em armadilhas
identitárias, que nos cegam, e não de relações construídas e compartilhadas
através da cultura. Com o tempo, passei a conflitar com minhas ações, meus
pensamentos, e formação, no desejo de
constituir- me quanto um sujeito autônomo, nesse desejo de mudança, em torno do
meu imaginário, padrões, valores, que organizam cosmovisões de mundo.
Ao
perceber que se trata de relações, que nem sempre estamos dispostxs a romper,
em diálogo com uma cultura judaico cristã, em que nossos valores independentes
de nos confessarmos católicos, passa quase que naturalmente pelo cabedal de
seus julgamentos, podemos pensar aqui principalmente, o modo como interagimos em
nossas relações sexuais e afetivas, e como existe um modelo privilegiado dentro
do discurso Ocidental. Ou seja, a
premissa da monogamia e de casais formados por um homem e uma mulher.
Entretanto,
na pós- Modernidade, vivemos o peso de
nossas escolhas em que as tradições podem
ser rompidas, repensadas e diante disso, cabe ao casal e não à sociedade, dizer
quais regras são válidas para si, mas é certo que o peso da escolha, me parece
muito mais atraente, que naturalizar um modelo de pensamento/ cultura sem
capacidade de elaboração , quando vivemos em um mundo multicultural e da
emergência de discutirmos as relações afetivas e interpessoais.
Tal
percepção, me trouxe imenso alívio, ao retirar o peso da monogamia e não
precisar construir chantagens em torno de minhas inseguranças. Temos de repensar, relações
em que o sexo, ao invés de ser um espaço de diálogo, prazer e energia vital, é
encarado com enorme caretice e se torne ao longo de anos um tabu entre casais, pessoas,
que deveriam compartilhar prazer e intimidade.
Para
tanto, tenho escolhido dar passos na direção de construir uma parceria que
pudesse ir além da regulação do orgasmo, ao mesmo tempo, em que tornei-me o
centro da minha vida, sem dúvidas o passo mais desafiador da minha existência, relações
mais éticas que não fizessem do não uso de preservativos uma prova de amor,
diminuiria conceitualmente o número de mulheres casadas, com HIV e DSTs, contudo, preferimos nos guiar
pelo peso da moral, não raras vezes observo pessoas combativas, na prática de
relações extra conjugais dos relacionamentos alheios, enquanto poderia nomear
em alto e bom som, todas as pessoas que seu companheirx flerta ou tem relações
afetivas/sexuais.
Nesse
jogo de esconde-esconde, o importante é fazer bem feito e escondidinho e não
cair na boca do povo, caso contrário à punição pode significar a perda da vida
entre as mulheres e total difamação, já entre os homens é motivo de separação, como meio de reparar a vergonha que a companheira carregará, da qual precisa
extirpar, e igualmente, todo modo de vingança.
Seja
para um, ou para outro, toda forma de vingança é justificável, no sentido de recuperar o que
chamariam de honra. Portanto, somos uma sociedade do sec XXI, totalmente
imersos a valores regentes da idade média
europeia, em que o sexo é apenas um dos sintomas, do estranhamento e distância
entre essas pessoas.
Não pretendo fazer de minhas reflexões, um
lugar de regra, pois a questão aqui é justamente romper, com ideias pré-estabelecidas,
sendo capaz de evidenciar a importância, de desenvolver pensamentos efetivos, acerca do que significa construir relações saudáveis, com responsabilidade e de
não mando.
Ao
longo da minha jornada, o encontro com Estela Cardoso, Margareth Carvalho,
Nelson Mandela, Giselle Marquez, Conceição Evaristo, Hanna Arendt, Achille
Mbembe, José Saramago, bell hooks , Paulino Cardoso e Frantz Fannon, foram
mudando minhas percepções acerca de ideias e costumes cristalizados, pois eram
pessoas capazes de traduzir em diversas linguagens, o que nem sempre a razão
era capaz de elaborar, não nasci feminista/antirracista, foi um longo e
doloroso caminho, havia dias que me sentia rasgando-me, noutros parecia louca,
sem muitas pessoas para poder partilhar, desejando ser outra coisa, para além daquela
alma, que me habitava.
Deixar de ser racista, não é tarefa das mais
fáceis, perceber que a sua educação vinculadas a práticas de submissão,
servidão e competição entre iguais, talvez de todas elas, essa seja a mais
difícil de romper, este é o centro da nossa dominação, lembro com imenso
espanto, entre os 9 e 10 anos, os colegas que
mais me faziam sofrer eram afros , mais pobres e escuros que eu, porém, moravam
na cidade e tinham o cabelo liso, isso era o suficiente para saberem, que não
eram iguais a Cristiane, ou melhor, não queriam ser iguais a mim, lembro-me de
me debater na tentativa de compreendê- los, minha noção racialista do mundo,
não me permitia perceber que de fato éramos extremamente diferentes, embora
parecidos fenotipicamente.
Na
medida em que fui crescendo, ia tentando compreender porque pessoas tão
parecidas comigo, na maioria das vezes, me causavam tanto sofrimento quanto os
brancos, na oitava série, estudei com uma adolescente afro, que fugia de mim
desesperadamente, ela era de classe média, bonita e inteligente (naquele tempo
me fizeram acreditar que eu era feia),
tentei algumas vezes sem sucesso me aproximar dela, mas o máximo que ela
conseguia fazer era evidenciar como éramos infinitamente distintas. Depois,
veio a tentativa dos namoros, e os adolescentes afros, disparavam – Não sou
como você, minha mãe é branca! Aquilo me repelia, nunca consegui usar a minha
mãe como um troféu, até porque ninguém me perguntava sobre ela, antes de me
ferir.
Já
adulta e mãe de Amilcar e Helena, fomos convidados para uma festa infantil, de
um casal de amigos, filhos lindos e bem
mais escuros que os meus, aquela relação me deixava muito feliz, a primeira vez
que ela veio correndo e chorando, pensei que era apenas coisas de criança, após rápida observação, constatei que as
crianças negras donas da festa, em especial a menina, estava excluindo a única
menina negra daquele espaço, cuja menina era a minha.
Sabia,
que os pais não iriam entender o que estava acontecendo ali, então tratei de
levar Helena no banheiro , ela chorava
ao me contar que a amiguinha que era igual a ela, não permitia que entrasse na brincadeira, Helena de 5 anos, que
não raras vezes, chega em casa contando situações que passa na escola , não
estava entendendo aquele jogo e nem sei se eu estava disposta a explicar lhe, o
tamanho da complexidade a qual ela estava imersa, pedi para que ela brincasse
com outras crianças e caso se sentisse mal, viesse ficar comigo. Demos um abraço
bem forte, e em seguida disse que a amava muito e ela foi brincar.
De
modo geral, não focamos nossos estudos no desenvolvimento das relações raciais
entre as crianças, quanto mãe, isso se tornou fundamental em minha vida, e me
parece que uma maior atenção a essa idade do desenvolvimento humano, explicaria
muitos acontecimentos da idade adulta e das relações extremamente violentas
entre essa mesma comunidade, se é que podemos chama- las assim, longe da
simplicidade de dizer “negros também são racistas”, a apreensão da violência e
do caos em que essas relações são
tecidas desde a tenra infância, seja naquele ambiente de educação fundamental,
como naquela festa infantil, poderia nos dar pistas de muitos tormentos e
decepções em nosso cotidiano, o que chamamos em nossa comunidade doméstica, de diferentes estratégias de sobrevivência e
enfrentamento do racismo, todxs nós somos violentadxs, porém, ao longo de nosso
desenvolvimento vamos construindo táticas, alguns no sentido de romper o
racismo dominante e outrxs a grande maioria, estratégias de assimilação, e de
acordo a nossos interesses esse espiral também pode mudar.
A
dinâmica dolorosa do racismo nos obriga a ter uma identidade racial, portanto,
a ter uma expectativa daqueles que
podemos identificar como iguais ou possíveis iguais. Ao mesmo tempo, dentro
de uma educação colonial, há um enorme incentivo para nos odiarmos, obrigando-nos ao afastamento, falamos sobre a
rejeição dos adultos vinculados a instituição escolar, que a criança faz parte,
dos colegas brancos, entretanto, algo fica eclipsado e não raras vezes são diluídas
naquele lugar em que as memórias produzem esquecimentos, os conflitos ,
rejeições e violência que crianças negras, oportunizam entre si, uma autoestima
precária que precisa necessariamente, destruir os espelhos que encontrará pelo
caminho.
Para
tanto, questões que ocorrem conosco desde a infância, são silenciadas, de um lado, pela própria
narrativa do movimento negro e de mulheres negras, que tem como alicerce a
solidariedade racial, como se ela fosse um destino, imersos em espaços em que a
identidade é construída a partir da
negação do outro, romantização da raça. Neste espaço de comunidade apagam os
enormes conflitos existentes nestes grupos, que precisa ver-nos como um bloco e apagar nossas
diferenças, políticas, partidárias, classe, gênero ademais das ilhas que
constituem nossa personalidade. Lembro-me de Mandela e sua recusa ao discurso
racialista, no sentido que se aquele discurso era o pilar do apartheid, não poderia ser incorporado por eles, como lugar de liberdade, embora
não negasse a imensa desigualdade daquelas comunidades culturais.
Referente
ao drama do qual fui atirada nos últimos sete meses, de ativista em ascensão,
fui transformada em uma mulher conivente com a violência de gênero, após meses de terapia, e cuidados de si,
compreendo, para que a narrativa daquelas mulheres pudesse ter verossimilhança,
não a verdade, baseado em fatos, provas, coerência, dignos da tradição radical,
da constituição ou de um país democrático, desde o início imperou a Fake News, ou a
mentira como instrumento político, presente em todo período totalitário. Para tal invencionice minha memória, todo
trabalho construído nos últimos cinco anos, deveriam ser destruídos, mas não
estava sozinha.
Do outro lado da linha, por intimidação, por
amizade, parceria, camaradagem ou a palavra mais usual, Sou uma mulher, outras mulheres deveriam participar da trama, pois assim, teriam uma narrativa sem obstáculos, ademais da isenção e do silêncio criminoso
que caminham de mãos dadas como cúmplices, porém, nem todas fomos intimidadas e
desse modo, estudantes, parentes, tivemos nossas vidas arrasadas, o que mais me
machucava era que essa desconstrução passou quase sempre, por vias de discursos
sexistas e racistas, foram apontadas como amantes do Professor, chegar a cursos de mestrado ou doutorado por
prestar favores sexuais , neste caso, diante sua expertise separaram não sei a
partir de qual lógica, ou quem sabe de um texto que fiz, no qual perguntava
inúmeras vezes, “se é verdade ou mentira não sei, mas vi no facebook”, (ao
perceber que tudo se tratava de fake News e o modo operante entre listas de
zap, facebook e tv, fiz esse pequeno texto, ironizando as afirmações das mesmas
), quais seriam as vítimas e quem seriam as outras, tão culpadas e merecedoras
do mesmo fim do suposto agressor, o corpo feminino e seus lugares de alcance e projeção,
ligados como todo imaginário machista à ideia, que para uma mulher obter
sucesso, precisa necessariamente abrir as pernas. Contudo, qualquer pessoa que
concluiu um mestrado, ou doutorado sabe o enorme esforço empreendido para
obtenção desses títulos, não por acaso fazemos analogias, referentes a gestação
e parto
Uma
colega em especial, havia concluído o ciclo neabiano, uma ótima graduação,
vinculado a um excelente currículo, mestrado, doutorado, no cabo de um longo
processo e tantos motivos para desistir, aquela ex-empregada doméstica, havia
se tornado, uma professora universitária, uma mulher do interior de Santa
Catarina, com sonhos de se tornar professora, ser a primeira da família a fazer
um curso superior, viu como única possibilidade o trabalho doméstico, porque
era uma branca pobre, mesmo ao entrar naquela universidade pública, aqueles
professores de uma classe média bem
servida, distante de quaisquer experiências com as classes populares e
principalmente, sem generosidade para conosco, permitiam que ela fosse daquelas
estudantes, que entram muda e saem calada, sem se importar, assim como tantas outras pessoas, encontrou
no Neab, um espaço de crescimento e fortalecimento.
Estávamos
exultantes, com aquela conquista, pois sabíamos, que era a primeira de nós,
havia fugido da gestação indesejada, de desistir da carreira como prova de
amor, situações corriqueiras vividas na universidade, foi com uma imensa
tristeza, quando soube das difamações sobre ela. A coragem de sair do interior,
vir sozinha para Floripa, enfrentar os preconceitos e a solidão de estar longe
da família, pesquisas árduas, em cartórios, leituras ao infinito, ter
participado de todas as modalidades de bolsas oferecidas na universidade e
seguir a risca seu planejamento (todo ano, esperava ela entregar seu
planejamento e fazia comparações de onde poderia melhorar).
Outra
neabiana, precisou sair das redes sociais, pois colegas e professorxs partiram
pra cima dela com toda truculência, embora tivesse medo das maldades que lhe
esperava, diferente dxs demais ela não foi persuadida. Desse modo, todo
dinheiro investido em livros, viagens para os congressos, para que machistas
apontassem, que o sucesso e imenso esforço delas estivera vinculado ao fato de
dormir com Paulino Cardoso, era apenas o começo da saga pela qual ainda me
encontro.
Com qual intencionalidade o fizeram? Anular o
seu discurso, foram as únicas? Não, fizeram isso com outras mulheres, que até
inicio de fevereiro quando organizamos o planejamento anual eram chamadas de companheiras, manas, de pessoas que lhes
ajudaram a pagar suas passagens para eventos, inscrições em mestrados,
passagens para chegar até o local, as estudantes de doutorado revisavam e
acompanhava na medida do possível, estudantes do mestrado e as de mestrado, as
da graduação, textos para submissão em revistas, oficinas para a prática de
escrita e de língua estrangeira, eu mesma dei durante algum tempo aulas de
espanhol e hoje a Duda vem ofertando aulas de inglês), os artigos coletivos do
Neab, na premissa ideia, de que podemos ir devagar e todxs juntos aprendendo a
construir práticas de conhecimento, que fossem capazes de transgredir, esse ensino
tecnoburocrata das universidades coloniais.
Dividiram-nos
entre as vítimas/ infantilizadas, amantes e a musa conivente, desse modo, as
incluídas em sexo extra-conjugais, que não eram puras como elas as supostas vítimas,
teriam seu discurso eliminado , já que não são merecedoras de serem ouvidas, a
não ser que usasse a palavra chave, assédio, na rota de eliminar testemunhas, me perturbava a
manipulação de discursos, que só podem habitar em mentes machistas, a ideia da pureza,
de uma mulher imaculada, infantilizadas
e por vezes, a passividade é tamanha, que parece estarmos diante de uma
caricatura, ao serem transformadas
necessariamente em meninas, pois as narrativas que seguiam seriam cabíveis, se estivéssemos
frentes, a casos de pedofilia e não de mulheres
de 38, 35 anos, 28, 25 e 22 anos.
As
que tiveram sua narrativa silenciada, passaram igualmente a ser punidas. Por
isso, tantxs pessoas (em especial mulheres), que não eram poucas, ao receber
orientação mesmo sem vínculos, se
calaram, pois o medo corta mais do que as espadas, lembrando que a intimidação
e punição moral funcionam, sempre funcionou, somos seres medíocres, ainda mais
com redes sociais que transforma cada indivíduo na espécie de alguém a busca de
fama, na extrema necessidade de likes e compartilhamentos. Era mais fácil
silenciar e fingir que não conhecia ou participara do núcleo, me parece que o
mal sempre conta com a cumplicidade dxs covardes. Seguidxs por “intelectuais”,
incapazes de encarar o racismo para além do papel ou melhor, é preciso lembrarmos
das estratégias de sobrevivência e dos jogos/redes de interesse dos quais fazem
parte, de um país que nunca enfrentou seus dramas coloniais
Desse
modo, quem não se adequou à narrativa, tornou-se vítima dela. Se fosse homem e
as questionasse era machista, se fossem
mulheres tornar-se-iam amantes ou coniventes. O silêncio criminoso,
possibilitou que o mal avançasse, e quanto mais incrível e mirabolante a
narrativa, mais o público vibrava.
Um
episódio, me pareceu bastante emblemático, uma estudante de doutorado da Faed,
que participava do Neab como pesquisadora associada e das Pretas em Desterro,
em momento de extrema fragilidade, de uma outra pesquisadora associada ao
núcleo, mesmo sendo taxada de amante , continuou
frequentando o espaço e orientando quem
permaneceu ali, ainda que fossem intimidadas a desistir. Esta estudante, a fins
que ela resolvesse uma dificuldade que estava tendo para embarcar em intercâmbio
internacional Abdias de Nascimento, a persuadiu dizendo que ouvira falar que ela , eu e Cardoso constituíamos um triângulo
amoroso. Quando ela, me relatou chorosa, tive um colapso, depois de alguns
dias, mais lúcida, momentos raros para quem vive, situações de extrema tensão, percebi o quão medíocre
aquela mulher se mostrará me senti feliz por estar longe dela, pois as máscaras
iam pouco a pouco caindo, como prega o
zen budismo a ilusão, nos aproxima da verdade e por fim, a moça alcançou seu
desiderato. Esse foi o clima instaurado contra nós, na universidade e em todo o
país, cada qual pedindo seu quinhão, caso contrário inventariam mais mentiras, e
as pessoas foram cedendo, participando do enredo, de chantagens e de um
realismo fantástico, de repente qualquer
medíocre, se sentia no direito de ameaçar, atacar.
Desde 2015, passei a transversalizar
a agenda do Núcleo com as atividades feministas da cidade e estado, 2015 foi um
ano impactante em todo o país, fervilhava discussões em torno da Raça, gênero e
bem viver, como secretária de mulheres da Unegro, a Marcha de Mulheres Negras,
estaria no foco das atividades a serem desenvolvidas, foi com enorme afinco que
saí de Vitória/ Espírito Santo, cheia de disposição para fazer de Santa
Catarina, um espaço em que a discussão sobre interseccionalidade fosse levada a
sério e dizer para as nossas mulheres, que iríamos marchar,contra o racismo,
sexismo e pelo bem viver.
O
espaço do NEAB, sempre fora igualmente um encontro em que alguns setores do
movimento negro, reconhecia como seu espaço institucionalizado, porque ali tínhamos
estrutura, espaço e podíamos ocupar sem problema o núcleo após 18:00 horas, horário que muitas mulheres saiam
do trabalho e que muitas estudantes também estavam livres, o planejamento para
a marcha de mulheres negras, teve início naquela sala do 301. Através do
sucesso de nosso planejamento foi possível chegar a muitas cidades do interior,
a resistência de antigas lideranças de Movimentos Negros e constante boicote, nos
forçou a nos interiorizarmos, ao perceber que Movimentos Negros de Florianópolis
tinham grande dificuldade em trabalhar de modo colegiado. Ademais eram adeptos
a uma linguagem entre si violenta e relações interpessoais complicadas.
Para
tanto, 8M, 25 de julho, 16 dias de ativismo, Afro Divas a participação nos
conselhos municipais e estaduais das mulheres, Marcha das Vadias, Fazendo Gênero, tudo isso amarrado a criação
das Pretas em Desterro, e as reuniões do grupo de feminismo negro, recordando
que não saímos do último encontro anterior a marcha com a organização de uma rede estadual de mulheres negras no
estado, porque durante o encontro, sofremos um enorme boicote de mulheres negras,
bastante conhecidas no estado , que se valeram de nosso respeito a elas
referente idade e tempo de militância,
para boicotarem minha iniciativa – Voltem para suas casas e organizem seus
quintais, antes de almejarem o estado, qualquer uma que participou daquela
reunião lembrará desse desfecho, a senhora pegou o microfone e fez seu picadeiro.
Foi com grande espanto que li uma das notas de repúdio, dizendo que aquelas
mulheres precisavam de palestras e formação, a fim de reconhecer a violência,
foi como sapatear em cima do meu caixão. Volto a enfatizar, primeiro foram
transformadas em crianças, depois em seres desprovidos de discernimento e para
tal, memórias coletivas precisavam ser apagadas, para que a narrativa se instaurasse, algo nada difícil, quando se manipula
um imaginário de pessoas colonizadas e alienadas.
O grupo de feminismo negro, movido pelo desejo
de nos constituirmos como espaço de crítica feminista, tornou se igualmente
nosso divã coletivo, em que nossas experiências eram partilhadas e
compreendidas, impactadas com as leituras de Lélia Gonzalez, bell hooks, Sueli
Carneiro, Angela Davis. Era sem dúvida o grupo de estudos que mais crescia no
núcleo, frente a nosso tático de 2018 construiríamos um diário coletivo, a fim
de crescermos através das experiências umas das outras, já que acreditava que a
partir de autoconhecimento, elaboração do cotidiano e enfrentamento do sexismo/
racismo, cada qual com seus potenciais era um quadro e melhor, possuíamos múltiplas inteligências e
conhecimento, esse sempre foi o tom de nossos diálogos, ao ser convidada para
coordenar eixos, produzir capítulos de livros, participar de mesas, convidava
as mulheres que compunham este universo de conhecimento, em que social e
acadêmico, puderam por algum tempo habitar o mesmo espaço, foram bons tempos,
porém fomos ingênuos ao acreditar que tais iniciativas passariam despercebidas.
Ao mesmo tempo, como diria minha terapeuta, os líderes subestimam o desejo e a
fome de seus lideradxs e de quem o cerca, de assumir seu lugar, após duas semanas de meu declínio, uma das fomentadoras daquele pesadelo, lança um curso sobre feminismo negro, e a
outra passa a ocupar a cena frente à discussão de mulheres negras.
Não
raras vezes, brincávamos que precisaríamos reservar uma sala, no Centro de Ciências
Humanas e da Educação – FAED/UDESC, para nossos encontros semanais, porém éramos
taxativas, que queríamos estar no Núcleo de Estudos Afro Brasileiros, pois
aquele espaço alegre, bonito e Preta, era nosso, ademais não queríamos perder
os deliciosos cafés do Neab, possível com a colaboração de todxs.
Hoje,
mergulhada nestas memórias compreendo o porquê, não apenas o coordenador daquele
Quilombo, Cristiane Mare/uma liderança em ascensão, e o Núcleo de estudos afro
brasileiros deveriam ser destruídos, algo tão pujante, capaz de produzir abalo
em sistemas de pensamentos coloniais/ racistas/ sexistas, em que propúnhamos
como diria bell hooks, a educação como meio de transgressão seria em algum
momento atacado, é preciso recordar que em espaços universitários, estéril de
experiências significativas, que permitam seus corpos reinscrever-se a partir
da reelaboração de suas experiências, tendem a destituir e punir iniciativas
que não se adequam ao status quo. Ademais, de eliminar o único espaço capaz de
provocar resistência, junto com ele o único professor negro da FAED.
A
partir de minha presença no Conselho Municipal de Direitos das Mulheres –
CONDIM/Palhoça percebi a necessidade de criarmos condições de monitoramento e formação
para as conselheiras, havia iniciado diálogo com o projeto Novos Horizontes, em
que eu, Daniela Pizarro e Paulino Cardoso, havíamos discutido a necessidade de
enfrentarmos o descaso com as mulheres em cárcere, esses seriam os desafios de
2018, ademais há algum tempo vinha construindo bases para trabalhar com
mulheres para além da classe média e está me pareceu uma oportunidade, pois poderia acompanhar mulheres, com experiências de vida
mais próximas às minhas.
Minha
vida tinha sentido, a partir destes diversos compromissos, não seria de
estranhar, que o arrombo, que estas pessoas que estavam comigo, sorrindo,
trocando ideias, empoderadas, e que faziam declarações em suas redes sociais
referente às nossas atividades me causaram, ao iniciar um espetáculo que tomou
conta da mídia local e nacional. Demorei muito tempo até compreender o que
estava acontecendo, era como se um furacão tivesse me deslocado, parte do sofrimento vinha do afeto/confiança/
respeito que nutria por aquelas mulheres, que nunca se deram o trabalho de perguntar se eu ainda estava viva, me causava uma dor imensurável, parecia
irreparável até o início da terapia com a Vebora Duarte.
Desde
março, venho vivendo momentos muito dolorosos, Estela Cardoso, subiu os morros de Florianópolis conversando com
patrão e patroa, para que esperassem o julgamento da justiça antes de o
condenarem sem provas, por conta do próprio esforço físico e medo, Estela teve
um infarto.
A
universidade Federal de Santa Catarina, a Universidade do Estado de Santa Catarina
e uma colunista, espalharam o endereço da minha casa, local e nacionalmente,
depois os urubus de plantão, trataram de compartilhar em suas redes sociais e
listas, foram dias de intenso terror, e por medo de linchamento e total clima
de ódio e justiçamento que havia se instaurado, as crianças pararam de ir para
a escola, já não abria as janelas de casa, e havia compreendido que não poderia
seguir com meus filhos ali, a qualquer momento nossa casa poderia ser invadida.
Enquanto
nas redes sociais, gritavam que eu era uma mulher conivente com a violência, eu
e meus filhos fomos submetidos a um clima de pânico e terror, era impossível dormir,
caminhar na rua. Em uma madrugada de abril, precisei escolher o que deixaria para
traz e fugir para proteger minha família.
Sendo
uma estudante de História, logo se aprende que o tecido social em tempos de
totalitarismo é totalmente corrompido, e toda barbárie se torna legítima, deste modo, bastou denúncias mentirosas, para que a vida da minha família fosse
totalmente destruída. E não importa se é verdade ou mentira, afinal quem se
importa?
O
racismo estruturante de nossas relações, vinculado a sentimentos de ciúme e
inveja permite o fortalecimento da Casa Grande, foi muito difícil compreender
que pessoas das quais nutria tanta afetividade, oportunizaram-me os momentos
mais sombrios da minha existência, longe
da família e de seu cotidiano, Helena e Amílcar choravam muito, com o tempo
passaram a ficar nervosos e brigar com outras crianças, também me sentia triste,
mas eu era a mãe. Ao me despedir de meu companheiro, não tinha certeza se voltaríamos
a estar juntos.
Após meses de resiliência, tentando suportar
as perdas, frustrações, medo, solidão e a saudade, quando todas as minhas ações
em torno do fortalecimento de mulheres e inclusive meu blog de poesia foram criminalizados,
passei meses sem conseguir escrever, abrir um email.
A
família, que nos acolheu no Uruguay não nos conhecia, mas abriram as portas de
sua casa, não tenho palavras para dimensionar o afeto que nutro por eles,
Lourdes, Julio, Luzia, a D. Melba. As minhas cunhadas e meus
sobrinhos queridos, assim como para todxs aqueles que seguiram comigo/conosco,
neste momento tão sombrio, suas vozes, cartas me permitiram ter esperança e
aquecer o coração, é também por vocês que consegui chegar até aqui. Sinto, que
não lhes agradeci o bastante.
Em julho voltamos do Uruguay, pois eu não
tinha mais condições de cuidar dos meus filhos sozinha. Quando passei a não ter paciência alguma com eles,
percebi que havia chegado ao meu limite, sim, eu havia adoecido, melhor todxs
nós. Nesse tempo, comecei a ter fortes
dores de cabeça, estava prestes a cair,
a dor era tão profunda, eu precisava, parar aquilo, mas como? São nesses
momentos de profunda dor e desespero, que o pensamento na morte se aproximava
com maior intensidade, igualmente eram
os momentos que meus filhxs diziam que precisavam de mim, me perguntavam sobre
minhas lágrimas e diziam - que precisavam de mim.
No
tempo que comporta essas linhas, provamos a inocência do meu companheiro na Justiça,
ao evidenciar o conteúdo mentiroso e infundado das acusações sobre ele, é tempo de iniciarmos avaliações de tudo o
que ocorreu conosco nestes últimos meses, os infortúnios que passamos, o
significado da saúde mental em instituições doentias, em que a competição, o
racismo e a inveja tornam-se pilares.
Em
tempos de luta contra o fascismo, conheci movimentos sociais que se organizam a
partir da mentira, delações sem prova, e que agem como justiceiros, o que nos aguarda nessa atual fase da
política/barbárie, quando progressistas têm como metodologia as mesmas ferramentas nazistas?
Quando uma patroa do tráfico, aponta que após a morte de Camilo, não podem mais
fazer justiça sem uma apuração dos fatos e antes que a justiça se pronuncie, já que
Camilo Cabral Barboza foi violentamente espancado, quando sua vizinha, ao almejar
a casa em que o mesmo alugava, o condenou a morte, dizendo que havia abusado de
sua filha, depois da delação, a mesma acompanhou e ajudou em sua execução,
Morro da Mariquinha Florianópolis- 2016.
Mas
aqui no asfalto, a palavra de ordem era de linchamento, quando uma patroa do
morro, nos diz que aprenderam uma lição ao matar um homem sem provas e que não voltariam
a fazê-lo, porém “intelectuais”, professores universitários, universitários e
movimentos sociais insistem para esse fim, percebemos que a ilustração não foi
capaz de salvar ninguém, não se trata de não saber, trata-se de escolhas, o
fascismo não está apenas naquele que carrega a blusa da CBF e sai gritando
vingança, naquele que ignora, porém naquele que trama e justamente por saber,
escolhe por tal caminho. Nestes últimos meses, tive a impressão que ela instalou- se confortavelmente no coração e nas
relações interpessoais dos brasileirxs.
O
peso do silêncio, esse sufocamento e a reescrita que tentaram imprimir em minha
história, não terá sido em vão, não irão me calar, tampouco me jogar em uma
sepultura antecipadamente.
Se
pude escrever, é porque vocês não me causam mais medo, sobrevivi a uma
escuridão que parecia não ter fim, devolvi cada uma de vocês a projeções reais, pois em
meus pesadelos pareciam gigantes, podem tentar apagar minhas memórias, podem
pegar meus ensinamentos, meus textos, minha poesia e criminalizá-la, podem
judicializar a minha prática de educação, mas não podem me calar e retirar de
mim o desejo da transformação, não podem sufocar a minha voz e luta por equidade, pois apesar de vocês,
ainda tenho esperança.
Cristiane
Mare da Silva
Palhoça,
outubro de 2018
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