EM DEFESA DO PROFESSOR PAULINO CARDOSO


Brasília-DF, 14 de junho de 2018.

Meu nome é Joelma Rodrigues da Silva, nasci e vivo em Brasília, sou professora adjunta da Universidade de Brasília-UnB, onde atuo na graduação de Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC) e no Mestrado em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais (MESPT). Acrescento que meu trabalho versa sobre questões de gênero, feminismos, questões raciais e africanidades.
Conheci Paulino Cardoso em 1985, éramos à época, graduandos em História e militantes do Movimento Estudantil que participávamos de um encontro nacional de estudantes daquele curso em Cuiabá-MT, nesses 33 anos acompanhamos à distância nosso amadurecimento acadêmico, político e pessoal. A Internet aliviou as distâncias e os encontros presenciais se tornaram mais frequentes.
Acadêmica e politicamente, Paulino Cardoso tem seu trabalho conhecido e reconhecido nacional e internacionalmente. Sua gestão à frente da Associação Brasileira de Pesquisadores (as) Negros (as) - ABPN foi irretocável, todos/as os/as associados/as que conheço ( e não são poucos) reconhecem quão fértil foi sua gestão, anos à frente do NEAB-UDESC fazem-me crer que também, lá, foram profícuos.
Em todos esses anos, jamais ouvi quaisquer comentários acerca do caráter ou da ética de Paulino Cardoso. Cheguei a sondar alguma amigas em comum para saber se elas já haviam notado quaisquer comportamentos ofensivos e/ou agressivos realizados por ele (sejamos óbvios: assédio é agressão, é ofensa). Nada me foi relatado. Não esqueço a surpresa estampada no rosto dessas mulheres diante de minha interrogação (àquelas que desconheciam as denúncias, não as relatei)...
Meu último encontro pessoal com Paulino Cardoso deu-se em Teresina-PI, em novembro de 2017. Na ocasião, participávamos do Congresso Internacional Àfrica-Brasil – V Encontro Internacional de literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas, encontrei um companheiro de estrada feliz com seu percurso que lhe dera três filhos e realizações profissionais e pessoais caras a uma pessoa negra diaspórica. Recordo-me que brinquei dizendo-lhe que eu estava à frente, pois já tinha um neto, ou seja, já era uma ancestral...
Poucos meses depois, quando esse irmão era aventado como candidato à reitoria da Universidade à qual ele se dedica há décadas, denúncias ferem – não apenas sua imagem – mas, sua/nossa história e seu/nossos espíritos. Não poderia escrever esse relato sem apontar a presença de uma clivagem racial nesse caso, de um reforço da imagem do “ homem negro agressor” tão presente na sociedade brasileira. Um homem negro, de Saco dos Limões, reitor? Penso que essa situação não foi digerida por muitos/as, pessoas negras ainda são intragáveis quando ocupam determinados lugares tradicionalmente ocupado por não-negros. E Paulino Cardoso, em todo seu percurso acadêmico-político, lutou contra essa estrutura.
 Recentemente, nesse mesmo estado de Santa Catarina, acusações levianas, cruéis e – até o presente – desonestas, promoveram o suicídio do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier. Queriam o corpo de Paulino? Não o terão. Esse meu irmão verá crescer “seus filhos e os filhos de seus filhos”, pois essa promessa abrange também a nós, pessoas negras insubmissas.
Respeitosamente

Joelma Rodrigues da silva


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