PROF. WILSON R MATTOS CARTA AOS PROFESSORES E PROFESSORAS DA UDESC








Salvador, 13 de junho de 2018
(Dia de Santo Antônio)

Prezados colegas da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC
Nos últimos meses, venho acompanhado, ainda que à distância, os desdobramentos relativos às acusações contra o Prof. Paulino Cardoso e que, confesso, tem me surpreendido a celeridade e a sanha com que, independentemente da Justiça, já o condenaram passando por cima de toda uma vida pregressa e -até recentemente, presente-, de dedicação à causa da universidade pública, de defesa das populações mais vulneráveis,  de organização da luta contra o racismo, além das inúmeras contribuições que o professor apresenta ao longo da sua vida de dedicação integral à educação, em especial, à formação e qualificação de pessoas.
Tenho o privilégio de privar da sua amizade há quase 30 anos. Nos conhecemos, ainda como estudantes de mestrado, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e rapidamente nos aproximamos por notarmos, de imediato, uma confluência bastante positiva de projetos de formação profissional, de produção de conhecimentos e de dedicação acadêmica e militante à causa das populações negras e suas lutas contra a discriminação racial.
Passada esta época, embora fisicamente distanciados pelas circunstâncias das nossas vinculações profissionais em universidades localizadas em estados brasileiros distantes entre si (Bahia e Santa Catarina), nunca deixamos de nos encontrar com relativa frequência e de manter a nossa amizade -a essa altura, já uma amizade familiar-, fazendo questão de aproveitar todas as ocasiões possíveis para que pudéssemos conversar pessoalmente, trocar informações e partilhar projetos e perspectivas futuras quanto aos nossos objetivos profissionais e militantes comuns.
Acompanhei a trajetória de ascensão acadêmica e profissional do Prof. Paulino, a ampliação do seu arco de articulações políticas e institucionais, tudo em nome de causas coletivas. Ao mesmo tempo acompanhei o seu crescimento e amadurecimento como pessoa e como cidadão, o que me permite assegurar sobre a sua retidão de caráter e correção no âmbito das relações pessoais e institucionais. Essa afirmação indubitável se dá também na medida em que eu, pessoalmente, compus a diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN, na ocasião em que o Prof. Paulino foi seu Presidente por 2 mandatos consecutivos. Não é trivial destacar que foi durante a sua gestão à frente da ABPN que essa nossa importante Associação Nacional adquiriu a credibilidade e o prestígio acadêmico de que hoje desfruta, tanto em âmbito nacional, quanto internacional.
Se considerarmos o histórico formato de reprodução do racismo brasileiro, não é sem procedência a suspeita de que as ações acusatórias que se movem contra o Prof. Paulino ancoram-se em uma notória intenção deliberada e, politicamente, orientada de anular da vida pública uma dentre as  pessoas negras mais promissoras e, ao mesmo tempo, mais independentes e autônomas, na reunião de requisitos necessários e imprescindíveis para o processo em curso de inversão da lógica racialmente excludente que caracteriza as relações de poder no interior das universidades e de outras instituições sociais de poder, de um modo geral.
Se assim não fosse, como explicar a virulência impiedosa com que os seus acusadores e acusadoras, somados a grupos e pessoas de interesses inconfessos, sem exibição de qualquer prova ou materialidade das acusações e mesmo antes de qualquer pronunciamento de instâncias competentes, fazendo uso abusado e irresponsável das redes sociais, se empenharam em destruir quase que por completo a vida profissional, familiar e pessoal do Prof. Paulino?
Colegas, professores, diante desse verdadeiro teatro de absurdos, faço-lhes a seguinte indagação: uma vez restando comprovada a inexistência de qualquer ato ilegal ou criminoso cometido pelo Prof. Paulino, quem responderá pelo déficit, irreversível, na saúde física e mental dele e da sua esposa? Quem pagará pelos intangíveis prejuízos no processo da construção afetivo-relacional entre o Prof. Paulino, seus dois filhos menores de idade e sua filha de pouco mais de 20 anos? Quem reparará os danos ocasionados à imagem do Prof. Paulino diante de um imenso número de estudantes e companheiros(as) de militância que o tinham como referência?
Convictamente, não acredito, em hipótese alguma, que o Prof. Paulino tenha cometido qualquer ato que deponha contra a sua reputação ou que tenha causado prejuízos físicos ou morais a quem quer que seja. Igualmente a mim, muitos amigos e amigas que o conhecem há anos, partilham da mesma convicção.
No entanto, se a amizade não for suficiente para caucionar esse meu sentimento, a racionalidade da minha formação o complementa em favor do que eu considero ser a forma correta de interpretar essa questão.  Pois bem, sou um cidadão brasileiro de 56 anos de idade, professor universitário há 25 anos, historiador e estudioso das relações raciais no Brasil, por igual período. A minha experiência somada à velha metodologia investigativa da nossa área de conhecimento deixa pouca margem para dúvidas na identificação das evidências de que essa questão está contaminado por intenções racistas e entrou em um perigoso circuito de relações de poder e interesses em flagrante prejuízo da verdade e da justiça.
Colegas, em tempos tão politicamente sombrios e profícuos na supressão dos nossos direitos, cuidar das nossas atitudes e decisões no sentido de não aprofundarmos as desigualdades, as discriminações e as injustiças é a única forma de mantermos a nossa dignidade e estatura moral diante dessa avalanche obscurantista.
No que diz respeito às acusações infundadas contra o Prof. Paulino, essa dignidade e essa estatura só poderão ser reivindicadas se, por justiça, concederem a ele o direito de recuperar ao menos parte da sua vida profissional, social e familiar que foi completamente destruída, por cálculo, frieza e perversão.
Façamos justiça. É o nosso dever.
Atenciosamente
Wilson Roberto de Mattos
Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Doutor em História Social – PUC/SP
Pós-Doutor em História Comparada – UFRJ
Prof. Adjunto de História

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