Alastair Crooke. “Israel juntando os cacos de sua arrogância arraigada”. Comunidad Saker Latinoamérica, 22 de junho de 2026.
“Israel juntando os cacos de sua arrogância arraigada”
Alastair Crooke – 22 de junho de 2026

O acordo de Trump com o Irã destrói o sonho de 40 anos de Israel de uma mudança de regime.
O acordo-conjuntura de distensão entre o Irã e os EUA foi assinado. Como sempre, chegar a um acordo-conjuntura é uma coisa, mas preservá-lo contra atores perturbadores ou distorções maliciosas do texto é outra bem diferente. Quem sabe por quanto tempo ele permanecerá intacto? O Memorando de Entendimento (MoU: Memorandum of Understanding – nota da tradutora), no entanto, constitui uma fase importante – embora seja apenas um passo – na longa jornada que o Irã possui pela frente. O acordo, porém, também pode provocar mudanças geoeconômicas mais amplas.
O Irã conseguiu pressionar um Trump relutante a cruzar o Rubicão. Danny Citrinowicz, ex-analista sênior de inteligência militar israelense especializado no Irã, afirma que, para Trump, “chegar a um acordo com o Irã e pôr fim ao atual ciclo de escalada não é meramente uma opção, mas um objetivo estratégico claro. […] Ele agora tem uma visão mais ampla das relações entre os EUA e o Irã”.
Um dogma inquestionável foi por água abaixo:
“A expectativa de longa data em setores de Jerusalém e Washington era de que uma pressão sustentada pudesse levar a uma mudança de regime em Teerã. […] [No entanto] o acordo anunciado sugere uma [nova] realidade fundamental: a campanha que muitos esperavam que enfraquecesse ou até mesmo desestabilizasse a República Islâmica terminará, ao contrário, com o regime intacto, fortalecido e formalmente lidado pelos EUA. […] [Isso] equivale ao colapso de uma suposição estratégica mais ampla: a de que a pressão coordenada dos EUA e de Israel poderia gerar condições propícias a uma mudança política fundamental dentro do Irã. Em vez disso, o resultado provável é o oposto… [É] um resultado que provavelmente reforçará a confiança em meio à elite governante [do Irã], em vez de enfraquecê-la…”.
Este momento representa uma grande conquista estratégica para o Irã: uma imagem heroica está se espalhando pelo mundo – enquanto o isolamento de Israel na questão iraniana, mesmo entre seus aliados do Golfo, atingiu um pico. No plano pessoal, a popularidade de Netanyahu em Israel despencou de forma catastrófica.
É claro que o “Acordo” pode desmoronar rapidamente – Trump é propenso a mudanças repentinas de opinião, e toda a força da classe bilionária sionista dos EUA está sendo lançada contra ele, obrigando-o a mudar de rumo (talvez por meio da mobilização da oposição no Congresso e no Senado).
Ambas as possibilidades são viáveis, mas o fato de Trump ter realmente chegado a um acordo – por mais provisório que seja – com o Irã ressalta uma divergência crescente entre Trump e Israel. E a tentativa de Netanyahu de romper a ligação entre o Memorando de Entendimento e qualquer cessar-fogo no Líbano (ao organizar um ataque em Dahhiya, em Beirute, no domingo) paradoxalmente alcançou o oposto – Trump prontamente melhorou os termos do Memorando de Entendimento para o Irã.
E se o acordo realmente se desintegrar, o Irã tem a opção de simplesmente fechar o Estreito de Ormuz – e, potencialmente, a passagem de Bab el Mandeb também. E o que Trump pode fazer? Quanto mais os EUA se aproximarem do “abismo econômico” e das eleições de meio de mandato, menor será o incentivo para ele reiniciar a guerra. De qualquer forma, o Irã está totalmente esperando e se preparando para uma retomada dos ataques militares.
Além dos impactos locais decorrentes da priorização, por parte de Trump, do entendimento com o Irã em detrimento do interesse de Israel em manter acesa a guerra no Líbano, o Acordo pode prenunciar consequências geopolíticas mais amplas –
O Irã, há quatro décadas, vem sendo envolvido pelas espirais cada vez mais apertadas de sanções, estrangulamentos energéticos e exclusão do dólar, refletindo os esforços incessantes dos supremacistas judeu-israelenses em Israel e nos Estados Unidos para manter o domínio americano sobre o Oriente Médio.
Os EUA exerceram quarenta anos de pressão máxima para quebrar o Irã; no entanto, paradoxalmente, por meio de sua hostilidade, acabaram forjando justamente esse adversário (o Irã), que agora exerce sua influência para, gradualmente, se libertar das espirais que o envolvem, de modo que possa começar a respirar com mais facilidade.
A resistência do Irã despertou a imaginação de grande parte do mundo – precisamente porque é vista como uma luta moral para reafirmar uma visão iraniana de seu próprio futuro.
Na verdade, o exemplo do Irã, ao contrário, abriu os olhos do mundo todo para o projeto dos EUA de coagir à força os Estados a aceitarem as exigências americanas de que se alinhem à imposição dos EUA da hegemonia sionista em todo o Oriente Médio.
Estados que já perceberam a extensão do estrangulamento imposto ao Irã estão buscando maneiras de se proteger contra uma utilização semelhante, por parte dos EUA, do comércio exterior de alimentos, petróleo, fertilizantes – e praticamente qualquer coisa em que os EUA possam criar um ponto de estrangulamento – para ser empregada contra eles.
Será que a assinatura do Memorando de Entendimento (MoU) será, de fato, uma espécie de ponto de inflexão? É muito cedo para dizer, mas uma pergunta inicial deve ser: a reviravolta [volte face] de Trump desferiu um golpe irreversível contra Israel?
Lazar Berman, correspondente militar do Times of Israel, observa que a “vitória total” e suas ilusões chegaram ao fim –
“As guerras pós-07 de outubro [2023], que vieram acompanhadas de expectativas e promessas de ‘vitória total’, acabaram – assim como suas ilusões. Os palestinos não vão deixar Gaza. O Hamas não vai se desarmar, nem o Hezbollah. Trump não vai voltar à guerra no Irã, que agora pode ameaçar se retirar de um acordo para fazer com que Trump impeça qualquer operação israelense de grande porte contra o Hamas ou o Hezbollah… O Oriente Médio certamente mudou”.
O objetivo de Trump, ao que parece agora, é chegar a um acordo com o Irã – ele aparentemente também acredita que a medida servirá aos interesses de Israel. Isso pode, ou não, ser realista. Pois, como escreve Aluf Benn no Haaretz, “a ideia de que Israel e o Irã sejam capazes de reconciliação após décadas de hostilidade, que culminaram em bombardeios e ataques com mísseis no ano passado, nunca foi sequer discutida em Israel”.
Foi essa lacuna que deu origem à arrogância e ao pensamento ilusório na classe dominante israelense.
Como o renomado comentarista israelense Nahum Barnea explica, nunca sequer passou pela cabeça de Israel que o Irã pudesse sobreviver a um ataque liderado pelos EUA –
“Provavelmente não havia ninguém da Inteligência Militar, do Conselho de Segurança Nacional ou da Mossad que levantasse nas reuniões a possibilidade de que o regime iraniano pudesse sobreviver e sair mais forte. Mesmo que houvesse alguns céticos na sala, eles mantiveram a boca fechada”.
Em Israel, a sensação de derrota é palpável.
O que Trump provavelmente busca agora é mais margem de manobra para sua visão de paz no Oriente Médio. Suas sugestões sobre a adesão do Irã aos Acordos de Abraão; o fato de que ele gostaria de dialogar com o Hezbollah e seus comentários (ainda mais absurdos) no sentido de que Jolani e a Síria deveriam “cuidar” do Hezbollah no Líbano, no entanto, dão suporte à tese de Citrinowicz de que, por enquanto, Trump alimenta alguma visão mais ampla (possivelmente improvável) sobre para onde as relações entre os EUA e o Irã poderiam caminhar.
Nesse cenário estratégico israelense reconfigurado, talvez até mesmo os pusilânimes europeus possam iniciar alguma ação corretiva, insistindo no retorno aos antigos entendimentos sobre a guerra – nos quais ataques de decapitação e campanhas de assassinatos em massa de mulheres e crianças estão fora de todas as normas civilizadas da guerra, sem falar na moralidade humana. Os negociadores iranianos insistiram nas negociações que quaisquer assassinatos ou mortes cessariam de vez as relações com os EUA.
A outra questão fundamental que decorre desses eventos é a seguinte: qual será o efeito da assinatura do Memorando de Entendimento (MoU) sobre a configuração da política dos EUA? Será que isso se revelará um ponto de inflexão distinto e estratégico? Será que os Estados Unidos como um todo começarão a se distanciar de Israel?
Há uma clara segmentação no eleitorado dos EUA. A faixa etária acima de 55 anos é, em geral, solidária a Israel; mas os jovens mudaram radicalmente de opinião. Mesmo entre os judeus americanos, 61% concluíram que Israel cometeu crimes de guerra em Gaza, e 39% consideram a conduta de Israel em Gaza como genocídio.
É claro que os defensores da política de “Israel em primeiro lugar” não mudarão de postura e insistirão para que o Congresso siga a linha deles.
Mas um artigo de opinião recente do WSJ – “Netanyahu perdeu a América mediana” – conclui:
“À medida que Israel se aproxima das eleições neste outono, estou confiante de que: se seus eleitores decidirem manter o atual governo, apesar dos erros fatais que ele cometeu, muitos americanos concluirão que a Israel que apoiaram por décadas não existe mais”.
Fonte da tradução:Comunidad Saker Latinoamérica. https://sakerlatam.blog/israel-juntando-os-cacos-de-sua-arrogancia-arraigada/
Fonte original: https://strategic-culture.su/news/2026/06/22/israel-picking-up-the-pieces-of-its-deep-seated-hubris/

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